Resilenciar

Levantar e, contidamente, Continuar.

sábado, 16 de outubro de 2010

chove e dói, é sempre assim.

Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou. E para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer... embora lateje louca nos dias de chuva.

(Caio Fernando Abreu)

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Em devaneio

Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê. Como aquela fé que a gente teve um dia. Me deseja também uma coisa bem bonita; uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez.

(Caio Fernando Abreu)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Minha Resiliência.

Em meio a esse turbilhão de acontecimentos, me recolho. Não porque simplesmente quero, mas porque se faz necessário. Talvez, nem se faça tão necessário assim, mas a minha mente estagnou. Parece que não consigo mais pensar em duas ou três coisas sem que ao mesmo tempo essas coisas me tragam à memória aquilo que eu não quero lembrar - "ufa". Pois esse "ufa", às vezes tão mecânico, é mais do que uma expressão de alívio. Afinal, tem coisa melhor do que  cair, sofrer, chorar e depois - "ufa" - levantar? Pode parecer masoquismo, mas sofrer às vezes é bom. Na vida, nos deparamos com situações nas quais chegamos a nos comparar com uma criança. Caimos - e caimos feio. E como aquela criança, temos vontade de ficar no chão; chorando e lamentando aquela dor que parece que nos consome. A dor é tão grande que se torna maior até que a convicção de que na vida tudo passa. Mas chega um determinado momento em que nós mesmos temos que cuidar das nossass feridas. E como, sem ajuda alguma, eu cuidaria das minhas feridas sem que, primeiro, eu me levantasse? Não, não havia, e nem há como. E, mesmo cheio de dor, decido me levantar. Essa decisão, que no começo parece tão difícil, se torna mais do que necessária. Me levanto. E começo a limpar, a cuidar das minhas feridas, só tudo começa a doer de novo... Aparentemente, muito melhor era não mexer mais naquilo que já tinha doido tanto. E aquele pano quente naquelas feridas me fazia chorar, e eu chorava mais do que quando eu havia caido. E no meu dia-a-dia, às vezes, sem querer, eu batia aquele arranhão em algum lugar. Como doia! Mas depois, quando eu não mais dava importância nenhuma àquelas feridas - sem que eu percebesse - cicatrizou. Penso comigo:  "Ufa'', eu consegui levantar!  E levantei mais convicto de quem sou e, mesmo carregando as cicatrizes - que nos dias de chuva chegam a latejar - me sinto forte. Agora, me levanto depois de cada queda, e recolho as  pérolas daquilo que, no começo, aparentemente não me traria benefício algum, apenas cicatrizes feias e dolorosas. Resiliência: é esse o meu lema. Cair, mas Levantar, e - Contidamente - continuar.

Letícia Lima.

Contidamente, continuar.

Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.

(Caio Fernando Abreu)